Saturday, October 28, 2006

O Ano da Desportividade Infinita

"A virtude exagerada, em vez de favorecer o amor, pode liquidá-lo. Estou farto de ver sujeitos que são amados pelos seus defeitos.

Por exemplo: o meu caro João Saldanha. Tenho-lhe um afeto de irmão. Quebrei minhas lanças para que a CBD o escolhesse. João Havelange e Antônio do Passo tiveram um momento de lucidez ou mesmo de gênio, um momento digno de Disraeli, e o chamaram. Ao ler a notícia, berrei: 'É o técnico ideal!' Um amigo meu, bem-pensante insuportável, veio me perguntar: 'Você acha que o João tem todas as qualidades necessárias?' Respondi: 'Não sei se tem as qualidades. Mas afirmo que tem os defeitos necessários.' E, realmente, o querido João Saldanha possui defeitos luminosíssimos.

Por exemplo: é um furioso. Não acendam um fósforo perto dele que o João explode. E aí está o primeiro e maravilhoso defeito: uma Copa do Mundo é uma selva de gângsteres. Dirão que é exagero. Exagero, uma ova. Perdão. Exagero, vírgula. Tudo é possível na Jules Rimet, menos uma boa ação. Portanto, se o João é um Tartarin ou, melhor dizendo, se cospe mais fogo que o dragão de São Jorge, melhor para o Brasil. O técnico precisa não apenas entender de bola. Antes de tudo, precisa ser um guerreiro.

Outro defeito: ele fará qualquer negócio para o Brasil ser campeão do mundo e voltar com o caneco de ouro. Dirão vocês: 'Mas é feio!' Ora, ora. Desde quando o bonito ganhou a Copa? De mais a mais, só os subdesenvolvidos têm escrúpulos. O inglês é um grande povo. Na guerra, salvou o mundo com a sua resistência. Mas em 1966 a Inglaterra foi de um descaro empolgante. Manipulou juízes, baixou o pau, fez horrores e ganhou. Portanto, com as suas qualidades o inglês salvou o mundo; com os seus defeitos, ganhou a taça.

Mais outro defeito do João: doutrinou o escrete para não levar desaforo para casa. Os lorpas, os pascácios, os bovinos hão de perguntar: 'E a desportividade?' Respondo que, na Copa, a desportividade é uma piada de necrotério. Dirão que em 1958 e 1962 fomos bonzinhos. Mas os demais concorrentes fizeram o diabo. E nós fomos bonzinhos graças ao nosso bom subdesenvolvimento.

Mais um defeito do Saldanha: a dionisíaca e, ao mesmo tempo, santa molecagem carioca. Foi para a Europa estudar os adversários. Mas lá não perdeu tempo. Pôs a boca no mundo: 'O futebol europeu é uma carnificina!' Disse, ou por outra, berrou isso em todos os idiomas. Hoje, até os esquimós sabem que, na Europa, os jogadores bebem o sangue do adversário como se groselha fosse. Ora, o que o Saldanha está fazendo, de país em país, é um terrorismo bárbaro. Está coagindo os europeus e todos os concorrentes. Se há um foul modesto, ele espalha aos quatro ventos: 'Assassinato! Assassinato!' Já os juízes de 1970 estão acuados. Não queiram saber que o João não fará no próximo Mundial.

Ele fez a advertência mundial: 'Meu jogador não dará o primeiro tiro. Mas, se começarem, nós vamos acabar com a guerra.' E os europeus, uns latagões, com uma saúde de vaca premiada, já tremem diante do João e já começam a sentir um prévio e isuportável sentimento de culpa. Creiam que, com os defeitos de João Sem Medo, o Brasil ganhará a Copa."

Saturday, December 31, 2005

O Ano da Banalidade

Banalidade é o que 2006 nos reserva. O ano da absoluta banalidade. E depois vem mais.

Friday, December 16, 2005

O Ano do Maestrocard Múndi

Mais um ano termina, porém não será no próximo que nossos patriotas perceberão que seu fabuloso sítio é, dos hipanismos, o mais vagabundo.

Wednesday, November 09, 2005

O Ano da Justiça Infinita

1998: França 3x0 Brasil
A 13a. derrota brasileira em Copas do Mundo.

Thursday, September 22, 2005

O Ano da Fita Microporosa Salvelox

Composição técnica: tecido não-tecido a base de fibra de viscose com adesivo acrílico.

Indicação: para fixação de curativos, ou quando falhar a lógica clássica.

Monday, August 08, 2005

O Ano do Semanário Seminal

Eu me dirigia ao ponto de ônibus outro dia, montado de preocupações, parei na banca pra comprar um chiclete anti-stress da Souza Cruz. Na pressa, catei a primeira coisa exoticamente colorida que passou diante dos meus olhos, e, surpresa, era uma revista semanal!

Cheinha de fotos, as notícias que foram manchete semana passada, dicas de livro, colunas ilustradas; tudo a preço de ocasião. Eu fiquei meio desconfiado, mas pensei: 'bah, eu ia gastar isso com puta sifilítica; vamos ver se presta' -- e a resposta é não.

Wednesday, June 08, 2005

O Ano da Misericórdia Minimal

Se 1968 ainda não terminou, 1964 não terminará nunca.

Enquanto nos distraíam com um pequeno golpe militar, eventos muito mais sombrios eram elaborados nos Estados Unidos da América. Na distante Tennessee, preparava-se a bomba mais destrutiva jamais imaginada: Roy Orbison.

Tão infecta sua canção, que, lá pela décima sexta tomada, até ele suplicou por misericórdia aos produtores. "Mercy". O tigrão foi atendido, mas a longa exposição fez sua casa pegar fogo, e, alguns anos depois, uma morte precoce o acometeria.

O resultado da nefanda tática todos conhecem: o muro de berlim caiu, a cortina de ferro oxidou. Mas a que preço, meus caros, a que preço? Ele teve paz, bom pra ele. Mas nós precisaremos aturar até o final dos tempos o rugido temível e fatal...


GRRROWL...

Tuesday, June 07, 2005

O Ano da Sensibilidade Satânica

Meu cão foge sempre que reboam os acordes iniciais do Fantasma da Ópera. Dentre os sentidos humanos, a audição nunca foi dos mais apurados.

O pós-guerra legou-nos Leonard Bernstein e Andrew Lloyd Webber. Todas as guerras são mortais.

Friday, April 22, 2005

O Ano das Variáveis de Montague

Aguardo a noite em que um cientista nuclear, se esfolando em contas elaboradíssimas, chegue a uma revolucionária solução: "pirê". E jogue batatas dentro do maquinário.

Melhor que dar certo seria ainda o agraciarem com o Nobel, pra criar escola. Com Isaac Newton foi assim, muito embora não houvesse Nobel e as escolas estivessem infestadas por pulgas.

Numa aula de mecânica celeste, questionados sobre o colapso ou não de um sistema de três corpos, nossos alunos concluirão que goiabada de marmelo. E haverá resposta a todas as nossas indagações fundamentais:

- Deus existe?
- X = ~X + banho
- Devemos ser bons?
- i menos raiz de três.

Friday, November 12, 2004

O Ano da Ausência Inexplicável

Pior do que deixar os leitores esperando é aparecer com uma desculpa esfarrapada -- "fiz quimioterapia", "estou sem luz elétrica", "preciso treinar para os jogos olímpicos de Pequim".

Eu fiquei sem postar por uma razão simples: não estava com vontade, e nem percebi que mais de um mês se passara.

A verdade é artigo raro num tempo em que jornais, impressos ou televisivos, estão infestados por declarações de políticos. Quando quero me informar, assisto a comerciais de aparelhos de exercícios abdominais.

Tuesday, October 05, 2004

O Ano do Contador Analógico

Jamais compreendi os contadores das fitas K-7. Invenção deveras diabólica.

Talvez roubados de automóveis no ferro-velho, e geralmente sem reset, os contadores iam de 000 a 999, mas seus números não representavam segundos, não se referiam à quantidade de rotações, variavam de aparelho para aparelho!

Como os soviéticos eram muito bons em xadrez, suponho que se tratasse de uma conspiração do mundo livre para que as crianças aprendessem matemática.

Mas talvez fossem apenas uma metáfora divina para a falta de sentido o mundo.

Wednesday, September 29, 2004

O Ano da Cantada Infalível

- Ó o tamanho da minha mão. Tá vendo o tamanho da minha mão? Imagina o resto.

(cantada vencedora de Grammy, e preferida de Rach e outros pianistas desconhecidos do século passado)

Aliás, a Medicina (assim, com M capital) afirma haver uma correlação entre o tamanho do pé e do pênis. Donde a psicologia conclui que sapatos apertados gerem calos gravíssimos.

O Ano do Spam Patriótico

Se spam fosse coisa boa, não chegava em casa de graça.

A moça do canal educativo disse ainda há pouco que não apenas que o spam em lata é melhor - argumento que não me seria fácil sustentar -, como o virtual faz o mundo perder milhões e milhoes de patacas.

Bem, sobre o escoamento de bilhões, eu também não poria minhas mões no fogo por nem uma fração de segundo, mas como acho spam coisa chatíssima, creio que o argumento seja válido para tentar alterar a lei.

E pra ter certeza de que lograremos êxito, basta pegarmos os e-mails dos congressistas, todos disponíveis na internet, e fazer campanha. Não com argumentos cretinos e assinaturas seguidas de números inconferíveis, mas mandando diariamente centenas de e-mails de emuladores penianos e congêneres compráveis on-line.

A tática me parece infalível. Exceto se um dos velhinhos comprar, der certo, e começar a fazer propaganda. Aí já era.

Saturday, September 11, 2004

O Ano das Fantasias Disjuntas

É impossível unir todas as partes de uma vida. Eu não consigo nem encaixar os meus pares de meias.

Sem que percebesse, me tornei filho, namorado, amigo, empregado, colega de trabalho, correntista, conhecido de internet, primo e até blogueiro. É desesperador, a cada dia me vejo um ser mais difuso e fantasmal. Não sei onde isso vai parar, e o mais enigmático da Santíssima Trindade é que Deus seja apenas três.

Sei que a observação não é original, pois o problema é universal. De Ricardo Reis a Frodo Baggins, todos sabiam inconscientemente o problema de ser um e inteiro: ou você é um, ou é inteiro e fragmentário. Não há meio-termo, não há solução, e vá explicar isso pra alguém na véspera de um feriado.

Friday, September 03, 2004

O Ano de Amanhã em O Globo

Nada mais ingênuo que espumar enfurecido contra o "monopólio global", pois foi, de longe, a melhor coisa que podia ter acontecido à tevê brasileira.

Muito mais consistente que a má qualidade e caretice dos programas da emissora, é sua vocação para enterrar os malas. Nisso é a maior do mundo!

Se surge um novo valor na MTV ou Gazeta, três meses depois a Globo já contratou e enfiou num horário lá pelas duas da manhã. Dois meses depois, a promessa está enterrada e caiada no vazio do descaso e do esquecimento.

Quem, portanto, poderá ser contrário ao monopólio? Não eu, repito. Quero mais que contratem do Raul Gil à Hebe Camargo. É minha oração no almoço, no café, e antes de deitar.

Não que a Globo seja infalível, claro. Faz alguns anos que tentam se livrar do Faustão e da Xuxa, e agora há o garoto da chinela 37, mas aos poucos o espaço diminui. De qualquer modo, se a Globo se livrou até do doutor Roberto, esses aí não hão de durar a eternidade.

Tuesday, August 31, 2004

O Ano do Inferno Francês

Cirque du Soleil. Na França, até os circos são chatos. Pelo fantasma de Napoleão, os palhaços são figuras trágicas! Se o circo de um povo é chato, imagine o resto...

O traço característico de toda a arte francesa é a sua estarrecedora chatura.

Se desde Juvenal sabemos que a base de um governo são o pão e o circo, apenas a genialidade dos confeiteiros explica a unidade do território francês.

Monday, August 30, 2004

O Ano da Hitita Bacana

Estou sentado num escritório, cercado por cabeças e corpos que repetem textualmente o que se afirma desde tempos imemoriais: "o mais formidável a respeito da civilização hitita era que os trens chegavam sempre no horário". Isso e algo sobre campeões morais.

Sobre Maratonas nada sei, que vi apenas a do Seinfeld na Sony. Mas sobre horários de trens hititas, muito mais formidável é a unanimidade dos especialistas. E o mais surpreendente é que nenhuma pessoa inteligente, das que usam nós kekulé às que frequentem cafés com óculos coloridos, tenha desconfiado...

Sim, sob risco de morte e de recebimento de notas de repúdio, revelo-lhes a verdade que navalha de Hanlon alguma me poderá tirar: a importância dos hititas foi a terceira maior piada acadêmica do século XX. Uma civilização relevantíssima surgindo ex nihilo? Sinceramente...

Que as obras da família Dawson (vide o homem de Piltdown) foram mais eficientes, ninguém pode negar, mas sua pobreza não resistiu aos clamores do tempo. A despeito da cotação de cinco bananas, são bem menos sensacionais.

A anedota hitita não só convenceu o mundo da existência de uma grande civilização inexistente, como se perpetuará imaculada, pois dela muitos ainda tiram seu sustento. (os menos sutis, desenterrando as porcelanas da avó e vendendo a turistas)

É a mentira perfeita, vaidade almejada desde a ascensão dos sofistas (espécie de promoters do Conhecimento da época), e que teve sua melhor forma nas memórias do velho Onassis.

Monday, August 23, 2004

O Ano do Bebê de Rosemary

Seria taxado de elitista pelas pessoas erradas se não comentasse as Olimpíadas. Pois bem, tenho um comentário então: orgulho-me de ser brasileiro. Orgulho-me, contidamente, toda vez que o iatismo ganha uma medalha; ou a ginástica olímpica, ou o remo.

Errr... pra falar a verdade, eu não me orgulho não, principalmente com esse "Bimba" por aí. Só disse aquilo para completar falando que sinto um profundo, e metafísico, nojo pelos frutos da pátria sempre que chegamos a uma final de vôlei de praia. Ou areia, segundo a norma culta, mas nojo mesmo assim.

Não sou como Rosemary, que cruzou com o capeta e, com a ignorância e mau gosto típicos das médias classes, queria a criança mesmo assim. Ptu; cuspo na Rose e no vôlei de areia.

O vôlei arenoso é sem dúvida o mais vulgar de todos os esportes, e prova-o a trilha sonora que se escuta ao fundo, com o pior do cancioneiro mundial. Até a egüinha pocotó já tocaram, e poeira é das mais finas coisas que há.

As pessoas suando, com o corpo cheio de propagandas de produtos vis, sempre um gordalhaço com sete camadas de papas na arquibancada, achando-se muito engraçado, seja por estar com véu (no passado), seja por estar fantasiado de supererói. Ptu pro gordo balofo, ptu pra todos vocês.

E os bobalhões na tevê educativa declamando eternamente que são uma dúzia de crimezinhos de seqüestro com extorsão seguido de morte que danificam a imagem de um país. Só não escarro porque isso seria muito "tosco", mandarei o negrinho do posto fazê-lo por mim ao custo de meia libra.

Friday, August 20, 2004

O Ano do Amolador de Almas

Otto Maria Estendido, espírito elegante que a ironia do destino pôs no Brasil, negou-se a registrar em Uma Nova História da Música uma das tradições mais difundidas neste Brasilzão de meu Deus: os músicos amoladores.

Pelo que agradeço, ou pararia a leitura no meio.

Talvez tenha preferido registrar num livro de antropologia. Trata-se da mais refinada forma musical desde que os árabes começaram a compor em ritmos conhecidos como "o passo do camelo" e "o galope do cavalo".

Os antigos diziam que a arte imitava a vida. Mas precisava ser a vida de animais? Não basta as pessoas dizendo que a cidade é um zoológico humano? (se bem que o cativeiro explicaria a diminuição da taxa de natalidade)

Imaginem Wagner compondo um ciclo de óperas para os loops de um Hamster. Ou Bach ritmando sua música conforme o transporte público de sua geração! Felizmente nada disso ocorreu: o mais próximo foram as cavalgadas das valquírias, e o Oscar para Dança com Lobos. Somos muito avançados.

Thursday, August 12, 2004

O Ano da Causa Eterna

Li em um dos wunderblogs que pessoas inteligentes defendem causas idiotas - incapazes de se defenderem sozinhas.

Até aí morreu Neves, dirá o leitor inexistente, qualquer um que tenha contato com a filosofia ou com AD&D (Int vs. Wis) sabe disso intuitivamente. O que me espanta é um dodecafonista comentá-lo...

Mas, estando nos wunderblogs, a gente entende. Triste espetáculo o de vizinhos articulados vomitando bubiça diariamente, não é possível deixar de graça sempre.

Ontem mesmo um dos melhores do condomínio mostrou que ninguém é perfeito, regurgitou o mais comum dos lugares: os filhos como forma de eternidade. E isso apesar de todos estes cartazes por aí explicando que "extinction is forever".

Eu gostaria de não entender mais nada.

O Ano do Hambúrguer da Morte

Estourou os miolos e foi pra carrocinha.

Quando documentários como Supersize My Ass são exibidos mundo afora, a vontade de impotência torna-se grande demais para que uma pessoa humana suporte.

Penso seriamente no suicídio por meio das fritas com hambúrguer e elixir da morte. O problema do suicídio número hum é que, além de não funcionar, sai caro.

Se um gerente da empresa pagasse minhas refeições, aceitaria não só a morte e a humilhação de um corpo informe, como a cessão de minhas imagens a comerciais que provassem o exato oposto.

De um modo geral, eu me venderia ao sistema sem hesitar. Mas o Kajuru disse que agora só no meio da temporada.

Friday, August 06, 2004

O Ano da Sinceridade Infinita

"Nossos inimigos são inovadores e pesquisam muito, e nós também. Nunca param de pensar em novas maneiras de prejudicar nosso país e nosso povo. E nós também não". (Presidente Bush)

Uma pessoa maldosa diria que o presidente foi humilde em suas declarações, e que o governo faz muito mais contra o país do que qualquer inimigo externo.

Mas eu acredito na sinceridade do presidente, não em síncope mental, pois foi o único, em toda a história, que teve coragem de declarar ao público que seu trabalho não é senão vender ar quente, palavras vazias, sem nenhuma base na realidade - "venditio fumi", como diziam os romanos do Sandaliolítico.

Verdade que, ao dizê-lo, cometeu um paradoxo, mas não se deve cobrar lógica de nossos dirigentes.

Cobro apenas jingles melhores; de preferência instrumentais.

Saturday, July 31, 2004

O Ano do Prato do Dia a 4,90

Abril é o mais cruel dos anos.
Lilases comeram o de gregos e baianos.

Em abril passado, perdi minha vida após um telefonema. E nem foi DDD. Venderam-me a idéia de que trabalhar fosse bom.

Não acreditei, mas fui na onda. A vida é um declive, e o dinheiro é a prancha. Vício maldito! me estrepaste.

E até nas horas de folga reina certa agonia. Não em casa, ou nos happy hours: no almoço, esclareço. Viciei-me no prato do dia, é belo como o binômio de Turing, mas tenho de aguentar os relinchos de colegas do trabalho.

Por três reais, almoçaria na casa da mãe, mas ela mora longe, e o caminho é lotado. O Prato do Dia, além de próximo à sua empresa, oferece um cardápio semanal a preço acessível, e as mesas à rua permitem que o cliente fume sem escutar ninguém falando sobre sua saúde.

O Prato do Dia é um templo, e não admito que o confundam com um PF proletário qualquer, talvez de dois e noventa.

Não sou dogmático, meu sonho é o fim do creme de milho às sextas. Adoro creme de milho, mas gostaria de ser surpreendido às quintas. Já pensei em sugerir uma caixa de sugestões ao dono do estabelecimento, mas o povo é mau, como qualquer eleição para vereador demonstra.

Não sei o que será de mim. Gostaria de levar marmita de casa. Mas o nome é muito feio. E onde trabalho não precisa capacete.

Friday, July 30, 2004

O Ano do Memoriol B6 200

Bloqueio, já no terceiro post, mas dizem que foi no terceiro que Jesus deu bom-dia aos infiéis, então prossigamos, com a cabeça nas nuvens, uma baioneta às costas, e os pés bailando sobre as ameias do castelo.

Começo dizendo que estava cheio de idéias no almoço, mas me esqueci. Sócrates, o meia libertino, atirava-se ao chão sempre que seu demônio lhe dava idéias, e pensava no assunto até que não pudesse mais se esquecer, um método puerilíssimo. Se, em vez disso, simplesmente escrevesse suas idéias num guardanapo à mão, além de perder menos tempo, teria deixado uma obra. Não há gênio sem cobra, já dizia o traumaturgo; esfole-se o cadáver.

Gênio, passarei a anotar minhas idéias no antebraço. Como suo demais, é provável que me torne um abstrartista, mas a genialidade é destas coisas que ninguém pode prever ou controlar.

Falta de assunto. Li blogs nas últimas semanas, e isso me confere o título de autoridade em tempos modernos. Faria analogia com filmes velhos de faroeste, com os três patetas, com fábulas infantis. Mas prefiro falar mal dos comentaristas: nota-se claramente que as piores conjecturas sobre a sociedade brasileira são brandas; Deus me guarde e livre dos comentaristas do Canjicas, cruz credo.

Liberdade ainda que manquinha.
Só comenta aqui quem tiver blog para também ser execrado :O)
Ou menina que mande foto nua à guisa de avatar.

Friday, July 16, 2004

O Ano do Cthulhu Abandonado

"The most merciful thing in the world, I think, is the inability of the human mind to correlate all its contents. We live in a placid island of ignorance in the midst of black seas of infinity, and it was not meant that we should voyage far. The sciences, each straining in its own direction, have hitherto harmed us little; but some day the piecing together of dissociated knowledge will open up such terrifying vistas of reality, and of our frightful position therein, that we shall either go mad from the revelation or flee from the deadly light into the peace and safety of a new dark age."