Tuesday, August 31, 2004

O Ano do Inferno Francês

Cirque du Soleil. Na França, até os circos são chatos. Pelo fantasma de Napoleão, os palhaços são figuras trágicas! Se o circo de um povo é chato, imagine o resto...

O traço característico de toda a arte francesa é a sua estarrecedora chatura.

Se desde Juvenal sabemos que a base de um governo são o pão e o circo, apenas a genialidade dos confeiteiros explica a unidade do território francês.

Monday, August 30, 2004

O Ano da Hitita Bacana

Estou sentado num escritório, cercado por cabeças e corpos que repetem textualmente o que se afirma desde tempos imemoriais: "o mais formidável a respeito da civilização hitita era que os trens chegavam sempre no horário". Isso e algo sobre campeões morais.

Sobre Maratonas nada sei, que vi apenas a do Seinfeld na Sony. Mas sobre horários de trens hititas, muito mais formidável é a unanimidade dos especialistas. E o mais surpreendente é que nenhuma pessoa inteligente, das que usam nós kekulé às que frequentem cafés com óculos coloridos, tenha desconfiado...

Sim, sob risco de morte e de recebimento de notas de repúdio, revelo-lhes a verdade que navalha de Hanlon alguma me poderá tirar: a importância dos hititas foi a terceira maior piada acadêmica do século XX. Uma civilização relevantíssima surgindo ex nihilo? Sinceramente...

Que as obras da família Dawson (vide o homem de Piltdown) foram mais eficientes, ninguém pode negar, mas sua pobreza não resistiu aos clamores do tempo. A despeito da cotação de cinco bananas, são bem menos sensacionais.

A anedota hitita não só convenceu o mundo da existência de uma grande civilização inexistente, como se perpetuará imaculada, pois dela muitos ainda tiram seu sustento. (os menos sutis, desenterrando as porcelanas da avó e vendendo a turistas)

É a mentira perfeita, vaidade almejada desde a ascensão dos sofistas (espécie de promoters do Conhecimento da época), e que teve sua melhor forma nas memórias do velho Onassis.

Monday, August 23, 2004

O Ano do Bebê de Rosemary

Seria taxado de elitista pelas pessoas erradas se não comentasse as Olimpíadas. Pois bem, tenho um comentário então: orgulho-me de ser brasileiro. Orgulho-me, contidamente, toda vez que o iatismo ganha uma medalha; ou a ginástica olímpica, ou o remo.

Errr... pra falar a verdade, eu não me orgulho não, principalmente com esse "Bimba" por aí. Só disse aquilo para completar falando que sinto um profundo, e metafísico, nojo pelos frutos da pátria sempre que chegamos a uma final de vôlei de praia. Ou areia, segundo a norma culta, mas nojo mesmo assim.

Não sou como Rosemary, que cruzou com o capeta e, com a ignorância e mau gosto típicos das médias classes, queria a criança mesmo assim. Ptu; cuspo na Rose e no vôlei de areia.

O vôlei arenoso é sem dúvida o mais vulgar de todos os esportes, e prova-o a trilha sonora que se escuta ao fundo, com o pior do cancioneiro mundial. Até a egüinha pocotó já tocaram, e poeira é das mais finas coisas que há.

As pessoas suando, com o corpo cheio de propagandas de produtos vis, sempre um gordalhaço com sete camadas de papas na arquibancada, achando-se muito engraçado, seja por estar com véu (no passado), seja por estar fantasiado de supererói. Ptu pro gordo balofo, ptu pra todos vocês.

E os bobalhões na tevê educativa declamando eternamente que são uma dúzia de crimezinhos de seqüestro com extorsão seguido de morte que danificam a imagem de um país. Só não escarro porque isso seria muito "tosco", mandarei o negrinho do posto fazê-lo por mim ao custo de meia libra.

Friday, August 20, 2004

O Ano do Amolador de Almas

Otto Maria Estendido, espírito elegante que a ironia do destino pôs no Brasil, negou-se a registrar em Uma Nova História da Música uma das tradições mais difundidas neste Brasilzão de meu Deus: os músicos amoladores.

Pelo que agradeço, ou pararia a leitura no meio.

Talvez tenha preferido registrar num livro de antropologia. Trata-se da mais refinada forma musical desde que os árabes começaram a compor em ritmos conhecidos como "o passo do camelo" e "o galope do cavalo".

Os antigos diziam que a arte imitava a vida. Mas precisava ser a vida de animais? Não basta as pessoas dizendo que a cidade é um zoológico humano? (se bem que o cativeiro explicaria a diminuição da taxa de natalidade)

Imaginem Wagner compondo um ciclo de óperas para os loops de um Hamster. Ou Bach ritmando sua música conforme o transporte público de sua geração! Felizmente nada disso ocorreu: o mais próximo foram as cavalgadas das valquírias, e o Oscar para Dança com Lobos. Somos muito avançados.

Thursday, August 12, 2004

O Ano da Causa Eterna

Li em um dos wunderblogs que pessoas inteligentes defendem causas idiotas - incapazes de se defenderem sozinhas.

Até aí morreu Neves, dirá o leitor inexistente, qualquer um que tenha contato com a filosofia ou com AD&D (Int vs. Wis) sabe disso intuitivamente. O que me espanta é um dodecafonista comentá-lo...

Mas, estando nos wunderblogs, a gente entende. Triste espetáculo o de vizinhos articulados vomitando bubiça diariamente, não é possível deixar de graça sempre.

Ontem mesmo um dos melhores do condomínio mostrou que ninguém é perfeito, regurgitou o mais comum dos lugares: os filhos como forma de eternidade. E isso apesar de todos estes cartazes por aí explicando que "extinction is forever".

Eu gostaria de não entender mais nada.

O Ano do Hambúrguer da Morte

Estourou os miolos e foi pra carrocinha.

Quando documentários como Supersize My Ass são exibidos mundo afora, a vontade de impotência torna-se grande demais para que uma pessoa humana suporte.

Penso seriamente no suicídio por meio das fritas com hambúrguer e elixir da morte. O problema do suicídio número hum é que, além de não funcionar, sai caro.

Se um gerente da empresa pagasse minhas refeições, aceitaria não só a morte e a humilhação de um corpo informe, como a cessão de minhas imagens a comerciais que provassem o exato oposto.

De um modo geral, eu me venderia ao sistema sem hesitar. Mas o Kajuru disse que agora só no meio da temporada.

Friday, August 06, 2004

O Ano da Sinceridade Infinita

"Nossos inimigos são inovadores e pesquisam muito, e nós também. Nunca param de pensar em novas maneiras de prejudicar nosso país e nosso povo. E nós também não". (Presidente Bush)

Uma pessoa maldosa diria que o presidente foi humilde em suas declarações, e que o governo faz muito mais contra o país do que qualquer inimigo externo.

Mas eu acredito na sinceridade do presidente, não em síncope mental, pois foi o único, em toda a história, que teve coragem de declarar ao público que seu trabalho não é senão vender ar quente, palavras vazias, sem nenhuma base na realidade - "venditio fumi", como diziam os romanos do Sandaliolítico.

Verdade que, ao dizê-lo, cometeu um paradoxo, mas não se deve cobrar lógica de nossos dirigentes.

Cobro apenas jingles melhores; de preferência instrumentais.