O Ano da Desportividade Infinita
"A virtude exagerada, em vez de favorecer o amor, pode liquidá-lo. Estou farto de ver sujeitos que são amados pelos seus defeitos.
Por exemplo: o meu caro João Saldanha. Tenho-lhe um afeto de irmão. Quebrei minhas lanças para que a CBD o escolhesse. João Havelange e Antônio do Passo tiveram um momento de lucidez ou mesmo de gênio, um momento digno de Disraeli, e o chamaram. Ao ler a notícia, berrei: 'É o técnico ideal!' Um amigo meu, bem-pensante insuportável, veio me perguntar: 'Você acha que o João tem todas as qualidades necessárias?' Respondi: 'Não sei se tem as qualidades. Mas afirmo que tem os defeitos necessários.' E, realmente, o querido João Saldanha possui defeitos luminosíssimos.
Por exemplo: é um furioso. Não acendam um fósforo perto dele que o João explode. E aí está o primeiro e maravilhoso defeito: uma Copa do Mundo é uma selva de gângsteres. Dirão que é exagero. Exagero, uma ova. Perdão. Exagero, vírgula. Tudo é possível na Jules Rimet, menos uma boa ação. Portanto, se o João é um Tartarin ou, melhor dizendo, se cospe mais fogo que o dragão de São Jorge, melhor para o Brasil. O técnico precisa não apenas entender de bola. Antes de tudo, precisa ser um guerreiro.
Outro defeito: ele fará qualquer negócio para o Brasil ser campeão do mundo e voltar com o caneco de ouro. Dirão vocês: 'Mas é feio!' Ora, ora. Desde quando o bonito ganhou a Copa? De mais a mais, só os subdesenvolvidos têm escrúpulos. O inglês é um grande povo. Na guerra, salvou o mundo com a sua resistência. Mas em 1966 a Inglaterra foi de um descaro empolgante. Manipulou juízes, baixou o pau, fez horrores e ganhou. Portanto, com as suas qualidades o inglês salvou o mundo; com os seus defeitos, ganhou a taça.
Mais outro defeito do João: doutrinou o escrete para não levar desaforo para casa. Os lorpas, os pascácios, os bovinos hão de perguntar: 'E a desportividade?' Respondo que, na Copa, a desportividade é uma piada de necrotério. Dirão que em 1958 e 1962 fomos bonzinhos. Mas os demais concorrentes fizeram o diabo. E nós fomos bonzinhos graças ao nosso bom subdesenvolvimento.
Mais um defeito do Saldanha: a dionisíaca e, ao mesmo tempo, santa molecagem carioca. Foi para a Europa estudar os adversários. Mas lá não perdeu tempo. Pôs a boca no mundo: 'O futebol europeu é uma carnificina!' Disse, ou por outra, berrou isso em todos os idiomas. Hoje, até os esquimós sabem que, na Europa, os jogadores bebem o sangue do adversário como se groselha fosse. Ora, o que o Saldanha está fazendo, de país em país, é um terrorismo bárbaro. Está coagindo os europeus e todos os concorrentes. Se há um foul modesto, ele espalha aos quatro ventos: 'Assassinato! Assassinato!' Já os juízes de 1970 estão acuados. Não queiram saber que o João não fará no próximo Mundial.
Ele fez a advertência mundial: 'Meu jogador não dará o primeiro tiro. Mas, se começarem, nós vamos acabar com a guerra.' E os europeus, uns latagões, com uma saúde de vaca premiada, já tremem diante do João e já começam a sentir um prévio e isuportável sentimento de culpa. Creiam que, com os defeitos de João Sem Medo, o Brasil ganhará a Copa."
Por exemplo: o meu caro João Saldanha. Tenho-lhe um afeto de irmão. Quebrei minhas lanças para que a CBD o escolhesse. João Havelange e Antônio do Passo tiveram um momento de lucidez ou mesmo de gênio, um momento digno de Disraeli, e o chamaram. Ao ler a notícia, berrei: 'É o técnico ideal!' Um amigo meu, bem-pensante insuportável, veio me perguntar: 'Você acha que o João tem todas as qualidades necessárias?' Respondi: 'Não sei se tem as qualidades. Mas afirmo que tem os defeitos necessários.' E, realmente, o querido João Saldanha possui defeitos luminosíssimos.
Por exemplo: é um furioso. Não acendam um fósforo perto dele que o João explode. E aí está o primeiro e maravilhoso defeito: uma Copa do Mundo é uma selva de gângsteres. Dirão que é exagero. Exagero, uma ova. Perdão. Exagero, vírgula. Tudo é possível na Jules Rimet, menos uma boa ação. Portanto, se o João é um Tartarin ou, melhor dizendo, se cospe mais fogo que o dragão de São Jorge, melhor para o Brasil. O técnico precisa não apenas entender de bola. Antes de tudo, precisa ser um guerreiro.
Outro defeito: ele fará qualquer negócio para o Brasil ser campeão do mundo e voltar com o caneco de ouro. Dirão vocês: 'Mas é feio!' Ora, ora. Desde quando o bonito ganhou a Copa? De mais a mais, só os subdesenvolvidos têm escrúpulos. O inglês é um grande povo. Na guerra, salvou o mundo com a sua resistência. Mas em 1966 a Inglaterra foi de um descaro empolgante. Manipulou juízes, baixou o pau, fez horrores e ganhou. Portanto, com as suas qualidades o inglês salvou o mundo; com os seus defeitos, ganhou a taça.
Mais outro defeito do João: doutrinou o escrete para não levar desaforo para casa. Os lorpas, os pascácios, os bovinos hão de perguntar: 'E a desportividade?' Respondo que, na Copa, a desportividade é uma piada de necrotério. Dirão que em 1958 e 1962 fomos bonzinhos. Mas os demais concorrentes fizeram o diabo. E nós fomos bonzinhos graças ao nosso bom subdesenvolvimento.
Mais um defeito do Saldanha: a dionisíaca e, ao mesmo tempo, santa molecagem carioca. Foi para a Europa estudar os adversários. Mas lá não perdeu tempo. Pôs a boca no mundo: 'O futebol europeu é uma carnificina!' Disse, ou por outra, berrou isso em todos os idiomas. Hoje, até os esquimós sabem que, na Europa, os jogadores bebem o sangue do adversário como se groselha fosse. Ora, o que o Saldanha está fazendo, de país em país, é um terrorismo bárbaro. Está coagindo os europeus e todos os concorrentes. Se há um foul modesto, ele espalha aos quatro ventos: 'Assassinato! Assassinato!' Já os juízes de 1970 estão acuados. Não queiram saber que o João não fará no próximo Mundial.
Ele fez a advertência mundial: 'Meu jogador não dará o primeiro tiro. Mas, se começarem, nós vamos acabar com a guerra.' E os europeus, uns latagões, com uma saúde de vaca premiada, já tremem diante do João e já começam a sentir um prévio e isuportável sentimento de culpa. Creiam que, com os defeitos de João Sem Medo, o Brasil ganhará a Copa."
